sexta-feira

Tu eras...

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

(Pablo Neruda)

Em busca do amor...

O meu Destino disse-me a chorar:
“Pela estrada da Vida vai andando;
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás de encontrar.”

Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfilando...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando...

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu... olhou... e riu...

Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos pra trás, desanimados...
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!...”

(Florbela Espanca)

Vida...

A vida é linda
mesmo doendo nos desencontros
e despedidas,
mesmo sangrando em malogrados
áridos hortos
searas maduras de sofrimento.
Chegar ao porto da vida finda
cantando sempre
sonhando ainda.

(Helena Kolody)

quinta-feira

Mesmo que...


...Mesmo que a vida mude os nossos sentidos e o mundo nos leve pra longe....

eu vou guardar cada lugar teu...

terça-feira

Vida.......


Vida que vivi
e não desejava!

Uma vida
no tempo disfarçando,
como se tudo estivesse bem!

No silêncio
vivendo a verdade,
amarga,
muito amarga,
mas resignando
às desventuras,
pensando no sofrimento,
muito sofrimento,
de outros…

Cansado, penso que o caminho
se desviou de mim
e não tenho a quem perguntar:
para onde vou?

Sei
quantas pedras desviei,
sei
quantas lutas travei,
mas não sei,
porque o amor se esconde.

Tem vergonha de mim?

Penso que não!

Terei dado
a quem não merecia?

Talvez!
Mas não me arrependo,
porque o amor dá-se
e não se retira!

O amor reacendeu
no meu coração!

Apareceste como um Anjo
que procurava!
Fez-se Luz…
Minha Vida te sorri…
(José Manuel Brazão)

Eu....



Se alguém perguntar quem sou,
diga que sou a poetisa;
que fala do amor,
que fala do vento
e se esquece do tempo.....

quinta-feira

....da calma fez-se o vento.....

vento1

…………

De repente do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes

terça-feira

Fugir....


Fugir, fugir de mim e deste alagadiço cárcere

onde decapito desejos e belíssimos sentimentos
no vento incerto povoado da distância,
emudecida no clamor dum só grito,
e dos pássaros que me cantam calados por dentro,
em cenóbios, claustrofóbicos conventos.

Fugir do verbo que permanente te chama, em pranto
algoz e farto, fazendo de cada onda, ondulado,
verde planalto,
e das grades frias desta noite agoniada,
desta noite a respirar saudade nos poros do novo dia,
a cada inoportuna madrugada.

fugir,fugir,fugir,fugir.......